Mais de mil centelhas
  

Despedida

E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perda da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.

Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.

E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?

 Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.

Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.

A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.

(Rubem Braga, do livro A Traição das Elegantes", 1967)



 Escrito por Clara às 01h38
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A janela da minha alma?



 Escrito por Clara às 00h00
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À gosto

Sugestões para atravessar agosto

Para atravessar agosto é preciso antes de mais nada paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro - e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah!, escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.

Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir, dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons, deixam a vontade impossível de morar neles, se maus, fica a suspeita de sinistros augúrios, premonições. Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem: qualquer problema, real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos. Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente, agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos - ou precauções-úteis a todos. O mais difícil: evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile a fantasia categoria originalidade...Esquecê-lo tão completamente quanto possível (santo ZAP!): FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.
Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.
Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques - tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informações para que as desgraças sociais ou pessoais não dêem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire, a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas - coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. É isso mesmo, evasão, escapismos, explícitos.
Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter de mais no tema. Mudar de assunto, digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco:.

Caio Fernando Abreu



 Escrito por Clara às 20h02
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BOLETIM DE OCORRÊNCIA (inacabado)

Nesses quase oito meses que não estive por aqui:

vi um show do Latino com as crianças. descobri novas emoções. estive em Cuba. tive um sentimento, todo, afastado. rendi-me ao dvd, que ganhei já usado. reencontrei amigos queridos depois de muitos anos. perdi amigos queridos depois de muitos anos. o som do meu carro foi roubado em pleno carnaval. bebi cerveza e mojito aos montes. fiquei menos ingênua. troquei meu número de celular, após sete anos com o mesmo. senti raiva. comprei uma câmera digital que estragou com uma semana de uso. chorei de saudade. li o tão afamado Código da Vinci e não gostei. perdi o Chico. ganhei o Caio F. senti dor na alma. dancei menos do que deveria. reaprendi a sorrir. fui confiscada na alfândega. gargalhei. fiz uma horta. briguei. comprei sapatos de boneca novos. caminhei pela praia. conheci novas pessoas. cantei no La Bodeguita. dei presentes. pensei no passado. assisti Closer e saí abalada. fiz alguém chorar. comi mouros e cristianos. fui multada duas vezes por excesso de velocidade. suspirei. fui enganada. arrumei meu computador sozinha. troquei seis por meia dúzia....



 Escrito por Clara às 19h49
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ORA YEYÊ Ô!

"Eu vi mamãe Oxum na cachoeira
Sentada na beira do rio
Colhendo lírios, liruê
Colhendo lírios, liruá
Colhendo lírios pra enfeitar nosso congá"


 Escrito por Clara às 23h36
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Lição de casa

show do casa da sogra + risadas+ som do tonho crocco + companhia agradável + show do clube do balanço + canja do benjor com várias músicas + bis interminável + temporal na saída + sussurros + falta de luz na chegada em casa = dia seguinte de virada e sem voz pra dar aulas.


 Escrito por Clara às 13h16
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Lembra...
 
... quando comentei contigo a respeito desse blog?
... que eu achava que era escrito apenas por uma pessoa?
... que passávamos horas discutindo bobagens, assim, como essa e centenas de outras?
... quando começávamos meio deprês e acabávamos rindo de nós mesmos?
... quando ainda tínhamos o que dizer um pro outro?
... que um dia, há séculos, nos encontramos entre letras desnecessárias?
Pois é.
Eu estava errada. Eles são dois, moço. E o blog virou livro.
Nós também somos dois. Estranhos, hoje. E viramos silêncio.
 
 


 Escrito por Clara às 00h31
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Viagem ao mês passado
 
Cidade Baixa: esquina da Lima e Silva com a República, 2º turno das eleições municipais, noite de domingo, após a divulgação do resultado. Bares cheios, calçadas lotadas de petistas e simpatizantes derrotados. Sinal fechado, a rua é invadida por dezenas de pessoas cantando, pulando, bradando palavras de ordem e muitas bandeiras vermelhas. Provocações. Carros com adesivo do adversário chutados. Buzinaço. Bate-boca. Símbolos queimados. Brigada Militar. Cavalos. Cascos escorregando nos paralelepípedos. Mais camburões. Não estamos na década de 60, mas em outubro de 2004.
 
- Só tem lugar dentro do Ritrovo, as mesas da rua estão lotadas e, pelo jeito das cervejas sobre a mesa, as pessoas não vão sair tão cedo. Vamos entrar?
 
- Se enfurnar dentro do bar enquanto o trem da história está passando na nossa frente? Nem pensar.
 
- Nêga, esse trem já descarilhou mesmo, tô morrendo de sede e a colisão, agora, é inevitável.
 
- Que seja. Prefiro morrer bebendo no trem, tonta, a ficar parada na estação.
 
No dia seguinte, véspera de finados, metade da cidade de luto, horário de verão na cabeça e uma ressaca pior do que mil vagões descarrilhados.


 Escrito por Clara às 01h43
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Momento Rosana - Como uma deusa

Essa entrevista só reforça o que eu sempre disse a respeito da Angelina Jolie. E como dizem minhas alunas, essa mulé é TDB!



 Escrito por Clara às 15h50
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Homens Que Eu Amo II
 
MDMC apresenta:
 
 
VITOR RAMIL
 

 
 
 
Não há necessidade de explicar o motivo de ele ter sido listado na seção "Homens Que Eu Amo". Quem passa uma, apenas uma noite ao som de Tambong e de vozes graves - seja no quarto, no bar, na rua, na chuva ou numa casinha de sapê - não sai incólume da experiência. Sim, há necessidade. Além do motivo musicalmente óbvio, o Barão de Satolep tira minhas dúvidas sobre fotos antigas do seu livro (sim, ele também é escritor), tem olhos profundos e calmos, mora no significativo Bom Fim, possui uma alma que quase pode ser tocada com a ponta dos dedos e a Estética do Frio percorre suas (nossas, vossas) veias. Seu novo disco, Longes, acaba de ser lançado e já promete rodar e rodar no meu cd player. Segundo ele, esse disco é mais emocional que os anteriores, conceituais. Mais emocional ainda?! Valhei-me, Joquim.
PS: como a perfeição não existe, o moço de Pelotas tem um defeito grave: é gremista.


 Escrito por Clara às 17h45
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O que interessa:

"(...) dentro de mim guardo sempre teu rosto e sei que por escolha ou fatalidade, não importa, estamos tão enredados que seria impossível recuar para não ir até o fim e o fundo disso que nunca vivi antes e talvez tenha inventado apenas para me distrair nesses dias onde aparentemente nada acontece e tenha inventado quem sabe em ti um brinquedo semelhante ao meu para que não passem tão desertas as manhãs e as tardes buscando motivos para os sustos e as insônias e as inúteis esperas ardentes e loucas invenções noturnas, e lentamente falas, e lentamente calo, e lentamente aceito, e lentamente quebro, e lentamente falho, e lentamente caio cada vez mais fundo e já não consigo voltar à tona porque a mão que me estendes ao invés de me emergir me afunda mais e mais enquanto dizes e contas e repetes essas histórias longas, essas histórias tristes, essas histórias loucas como esta que acabaria aqui, agora, assim, se outra vez não viesses e me cegasses e me afogasses nesse mar aberto que nós sabemos que não acaba nem assim nem agora nem aqui..."

(Caio Fernando Abreu)



 Escrito por Clara às 19h00
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Killing me softly
 
Antônio chegou.
Me comeu com os olhos.
Mastigou.
Lambeu os beiços.
Me sangrou.
No fim, deixou um band-aid.


 Escrito por Clara às 02h44
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Atenção, srs. passageiros
 
Faz duas semanas que me encantei com o show do Seu Jorge, mesmo que tenha sido no Opinião - lotado. Fiquei nas alturas e, até agora, ainda não tinha voltado à terra. Hoje, quando decidi parar de viajar e colocar os pés no chão, meu mundo caiu.


 Escrito por Clara às 02h53
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A comunidade das Hello Kitty trash
por Nina Lemos

Somos garotas ultra fofas. Moramos em apartamentos com bichos ou plantas. Não nos drogamos. Fazemos terapia. Lemos bastante. Pagamos nossas contas. Trabalhamos muito e adoramos um consumo básico.

Parece até que somos garotas certinhas. Mas, ufa, não somos! E não ouse falar isso para a gente. Isso porque a gente é punk, tá ligado? E por mais que a gente seja um pouco certinha... temos sempre um dos pés enfiado na lama.

Garotas Hello Kitty Trash têm o sonho da casa própria, mas se recusam a se adaptar a uma vida totalmente burguesa. Por isso, saem demais e fazem merda quando saem. Tipo ter amnésia alcoólica, ou tipo nem beber mas fazer coisas de bêbado sempre mesmo assim.

Sim, porque uma Hello Kitty Trash é cercade de bêbados (apesar de muitas vezes não beber). Podemos estar caretas, mas estaremos rodeadas por amigos bêbados ou pretendentes bêbados. Sim, porque temos como ícones pop personagens tão díspares como a Hello Kitty e o Iggy Pop.

Isso significa que a nossa melissinha rosinha do Sommer vai ficar atolada na lama uma noite dessas. E que a gente vai ficar na dúvida se deve limpar o salto depois ou deixar o sapato lá, largado na lama.

E também que vamos viver em eterno conflito com os homens. Sim, porque nessa parte a gente obviamente não vai querer um homem Hello Kitty. A gente vai querer um homem Iggy Pop!

Só que se o Iggy em si aparecesse a gente ia falar para ele se alimentar melhor e tentar salvar a vida dele com algumas regrinhas. Sim, as vezes falamos no diminutivo. Mas é só de vez em quando. Só até alguma de nós gritar libera o mosh e a outra se enfiar em uma confusão bem grande...


 Escrito por Clara às 23h31
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Momento Scarlet O'Hara
 
"Por que, com teus encantamentos infernais, arrancaste-me à tranquilidade da minha primeira vida... O sol e a lua brilhavam para mim sem artifício; acordava entre aprazíveis pensamentos e, ao amanhecer, dobrava as folhas para rezar minhas orações. Não via nada de mau, pois não tinha olhos; não escutava nada de mau, pois não tinha ouvidos; mas hei de me vingar!"
 
Discurso da mandrágora, em Isabel do Egito.


 Escrito por Clara às 13h55
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