Mais de mil centelhas
   Mais uns dela, bem curtinhos:

"Te repartir
Me deixa em pedaços."

"Acabei de perder uma palavra
No meio de um pensamento
Fugitiva, sumiu com o vento
Apressada, esqueceu o acento."

"Esse infeliz só me vê como uma boceta
Porque no lugar de neurônios
Ele tem gametas"

"Essa minha cor vermelha?
É o sangue sugado
Pela pulga atrás da orelha."

"Não uso sutiã
Não preciso de nada
Que me sustente."

"Não é por ter pés de galinha
Que eu vou ficar aqui chocando."

"Enquanto eu pensava ser uma especiaria
A temperar sua iguaria
Ele me via apenas
Como uma reles guria."

"Seus anos
Não cabem na mão
Mas enchem de vida
Essa vida de senão."

"Não adianta me esquentar assim
Eu nem posso levantar fervura
Que seu leite já derrama em mim."

Tá bom, chega. Eu sei, eu sei. Vou parar por aqui.

 Escrito por Clara Crocodilo às 18h27
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   Passei aqui só pra deixar a Paula que, até ontem, estava perdida na minha estante.

"Ele é psicodélico
Feito um caleidoscópio
Girando na minha mão
Caindo e se transformando
Formando
Estrelas e cores
Que despertam mil amores
Dramático
Lógico
Elástico
Prático
Trágico
Cênico
Ele assume seus personagens
Tirando deles a máscara
Escancarando suas faces
E dando-as pra bater
Sua voz já me deu o seu timbre
E fez de mim sua cúmplice
Hoje sou sua réplica
E ele fecunda o meu núcleo"

Paula Taitelbaum, do livro "sem vergonha", de 1999.

 Escrito por Clara Crocodilo às 18h14
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   Roda, roda, roda e avisa: um minuto pros comerciais...

O reclame (!!!) é mais um oferecimento das Organizações Kibe Loco. Essa eu compro e assino embaixo.



 Escrito por Clara Crocodilo às 23h57
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   Hoje eu quero sair só
Lenine

Se você quer me seguir,
Não é seguro.
Você não quer me trancar
Num quarto escuro.
Às vezes parece até que a gente deu um nó,
Hoje eu quero sair só...

Você não vai me acertar
À queima-roupa,
Vem cá, me deixa fugir,
Me beija a boca.
Às vezes parece até que a gente deu um nó,
Hoje eu quero sair só...

Não demora eu tô de volta...
Tchau.
Vai ver se eu estou lá na esquina,
Devo estar
Tchau.
Já deu minha hora
E eu não posso ficar.
Tchau...

A lua me chama,
Eu tenho que ir pra rua.


 Escrito por Clara Crocodilo às 23h54
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   Noite de eclipse

Na lua, tua sombra brinca de esconde-esconde.



 Escrito por Clara Crocodilo às 01h46
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   Sempre te desejo. Inclusive sorte.

 Escrito por Clara Crocodilo às 01h44
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   A razão do entusiasmado post anterior? Está aqui, por exemplo:

Janela Sobre a Palavra/1

Magda Lemonnier recorta palavras nos jornais, palavras de todos os tamanhos, e as guarda em caixas. Numa caixa vermelha guarda as palavras furiosas. Numa verde, as palavras amantes. Em caixa azul, as neutras. Numa caixa amarela, as tristes. E numa caixa transparente guarda as palavras que têm magia.
Às vezes, ela abre e vira as caixas sobre a mesa, para que as palavras se misturem do jeito que quiserem. Então, as palavras contam para Magda o que acontece e anunciam o que acontecerá.



E aqui:

Janela Sobre Uma Mulher/3

Ninguém conseguirá matar aquele tempo, ninguém vai conseguir jamais: nem nós. Digo: enquanto você existir, onde quer que esteja, ou enquanto eu existir.
Diz o almanaque que aquele tempo, aquele pequeno tempo, já não existe; mas nesta noite meu corpo nu está transpirando você.



Aqui também:

Para Inventar o Mundo Cada Dia

Conversamos, comemos, fumamos, caminhamos, trabalhamos juntos, maneiras de fazer o amor sem entrar-se, e os corpos vão se chamando enquanto viaja o dia rumo à noite.
Escutamos a passagem do último trem. Badaladas no sino da igreja. É meia-noite.
Nosso trenzinho próprio desliza e voa, anda que te anda pelos ares e pelos mundos, e depois vem a manhã e o aroma anuncia o café saboroso, fumegante, recém-feito. De sua cara sai uma luz limpa e seu corpo cheira a molhadezas.
Começa o dia.
Contamos as horas que nos separam da noite que vem. Então, faremos o amor, o tristecídio.


Eduardo Galeano, do livro "Mulheres".

 Escrito por Clara Crocodilo às 02h14
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   A pequena loja de palavras mágicas

Depois de uma busca árida, encontrei-o singelamente, como se a surpresa já tivesse sido anunciada calidamente. Mas não fora anunciada, nem mesmo sussurrada, e por isso mesmo chegou a ser emocionante, tanto que fiquei com os olhos brincando de marejar. Não só pelo encontro, mas também pelo atendimento: uma senhorinha deliciosamente simpática e boa de prosa - como todos os livreiros deveriam ser. Quando expliquei que não encontrava o que buscava em outras livrarias, ela bateu palmas de satisfação: o bendito estava ali, na segunda estante à esquerda. Foi buscá-lo saltitante, como se o final da minha peregrinação a tivesse rejuvenescido uns 35 anos. Eu fui atrás, seguindo-a e sorrindo para nossos passos contentes. Segurando o livro como se já fosse meu há séculos, descobri que a pequena e nova livraria, injustamente perdida numa galeriazinha sem atrativos do bairro vizinho ao meu, não tem funcionários e a dona (a senhorinha saltitante) adora desafios, portanto, me pediu uma lista dos livros-que-eu-quero-mas-nunca-encontro. Que eu telefone encomendando, me disse ela. E que me identifique como "Clarissa, uma das Mulheres do Galeano." Sem me importar com a poligamia, rimos juntas. Na saída, ainda encantada com aquele pedacinho mínimo do mundo dos livros, tive a certeza de que além de amante dos livros, a saltitante é bruxa. Porque até agora não lembro o que me fez entrar naquela galeria vazia, escondida entre lojas caras, num bairro chamado Tristeza.

 Escrito por Clara Crocodilo às 01h46
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   Sim, é claro que ele foi irônico nas últimas frases. Alguma dúvida? Consulte o Sr. Houaiss ou Sr. Aurélio.
ironia . [Do gr. eironeía, 'interrogação', 'dissimulação', pelo lat. ironia.] S. f. 1. Modo de exprimir-se que consiste em dizer o contrário daquilo que se está pensando ou sentindo, ou por pudor em relação a si próprio ou com intenção depreciativa e sarcástica em relação a outrem: Voltaire foi um mestre da ironia. 2. Contraste fortuito que parece um escárnio: ironia do destino. 3. Sarcasmo, zombaria. Ironia socrática. Filos. 1. Modo de interrogar pelo qual Sócrates (v. socratismo) levava o interlocutor ao reconhecimento da sua própria ignorância.


 Escrito por Clara Crocodilo às 14h59
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   Com a palavra, aquele que foi meu (des)orientador, na coluna (a dele, não a minha, cervical e única que possuo) do Correio do Povo.


A VIDA COMO ELA NÃO DEVE SER
Juremir Machado da Silva


Ninguém duvida: o bicho 'tá' pegando e o pau, comendo. No Rio Grande do Sul, a Polícia anda chutando até canela de poste. Quatro flagrantes de como a vida não deveria ser. No sábado, depois do futebol, um amigo meu viu uma cena edificante. Uma senhora acusou um bando de garotos de ter tentado assaltá-la. O brigadiano pegou o primeiro guri que viu. Meteu-lhe o coturno no joelho, deitou-o de costas e fincou-lhe o cano do revólver na cabeça. O adolescente só gritava: 'Não fui eu, tio, o cara fugiu lá pra cima'. Mas era da gangue.
Nada de novo no front. Essa cena já não espanta ninguém e até encontra aplausos. Na avenida Osvaldo Aranha, tradicional espaço noturno de varejo de maconha e cocaína, nos limites daquilo que acontece em porta de colégio, a BM tem dado seus 'atraques' na base do pontapé no saco. Mesmo quem não tem nada a ver com o pato acaba passando por sessões de humilhação de fazer inveja a 'Carandiru'. Questão, dizem, de impor respeito aos marginais que, como bem se sabe, são apenas os fornecedores dos bons filhos da classe média, principalmente da alta, pois a baixa, com 1% de aumento e a ameaça de 11% de contribuição dos inativos, está mesmo é na lona. Vai acabar tomando cachaça e fumando desfiado. Ainda bem que isso é chique... na Europa, até em coquetel com caviar no Ministério da Cultura.
Segundo ato. Há alguns meses, um jovem negro universitário foi esperar a namorada na frente de um banco. O guarda achou que só podia ser ladrão e chamou a Polícia. Isso porque não somos racistas. Está cientificamente provado que somos um paraíso tropical sem pecado nem maldade. Racistas são os caras lá da África do Sul. Nós somos apenas seletivos. O garoto pirou. Era o que faltava para derramar o fel acumulado num percurso na contramão. Tinha passado a vida a ser discriminado, sacaneado e maltratado. Chutou o balde. Infernizou quem pôde. Acabou assassinado pelo próprio irmão, que ainda se espantou quando foi preso: 'Mas vou ter de parar de trabalhar por causa daquele imprestável?'.
Nessa semana, durante o desfecho do seqüestro de um diretor da Santa Casa, aconteceu algo de deixar os espectadores boquiabertos, quase à sombra da Igreja Santo Antônio. Depois de capturar os dois seqüestradores, um baixinho e um fortão, a Polícia gravou, na frente de todo mundo, uma espécie de ficha com imagem de cada bandido. É uma categoria nova: o diretor de cinema trash fardado. Nos créditos: nome da mãe, endereço, 'se mentir, apanha'. Nunca se viu uma técnica de direção tão eficaz, nem Herzog conseguiria ser mais incisivo: 'Baixinho, tu dançou, agora fala, e, se fizer gracinha, leva cacete quando chegar lá embaixo'. Assim, em público, arma na mão, sem corar. Expedita, a massa só queria linchar os larápios. O diretor da Santa Casa mal tinha sido libertado e não ia, claro, se queixar de quem o salvara. A hora não era para bancar o defensor dos direitos humanos, embora a encenação fosse certamente para isso. O baixinho e o fortão choramingaram (num segundo, eram dois coitadinhos) e representaram como deviam, afinal aquilo não passava de uma ponta num filme interpretado por milhões de brasileiros. Mas o outro lado tem o seu ponto de vista e acha que, se não falar grosso, não se impõe e entrega o ouro para o bandido. Dessa pequena diferença de olhar é que surge a espetacular esculhambação que assola o Brasil. Quarta e última cena: a cabine telefônica da frente do Hospital de Pronto de Socorro virou um quarto de pensão. Quando foi construída, toda bela, um velhote com ar sonhador lembrou-se de algo vago no passado e comentou: 'Até parece a Europa'. Uma magricela mal-humorada respondeu-lhe na bucha: 'Vai virar latrina'. Aos poucos, passou a ser ocupada pelos sem-teto que moram no Bom Fim. Ultimamente, teve um que se instalou com tudo, travesseiro, cobertor e acho que até colchão. O sujeito se dava o trabalho de retirar tudo de manhã. Por fim, largou de mão. Nos últimos dias, retirou-se, pois o inverno está chegando e ele ainda não obteve o 'habite-se'. A burocracia é terrível! Senhora quase elegante: 'O safado não sabe que isso é de domínio público'. Resposta de outra senhora, muito pobre, com voz tímida: 'Acho que ele não gosta de dormir aí. É apertado. Mas duvido que alguma autoridade perca o sono por causa disso'. Não saio mais de casa. Na rua, ouve-se e vê-se demais.


 Escrito por Clara Crocodilo às 14h34
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